No amargo da Terra – Cap. I

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ALUMÃ


Sem adoçante

Sem açúcar

Sem piedade.

Entre os nervos

Entre os sonhos

Entre os intestinos.

Somente folhas

Fora dos dicionários

Ausente das medicinas.

Dos amargos da vida

Das ressacas do tempo

Dos sumos mais rançosos.

O fel dos soluços

O mel das receitas

O chá das tempestades.

O suco gástrico das manhãs

O visgo grosso da jaca

A pele fina da mangaba.

O cheiro leve da abricó

O afrodisíaco do cajá

E o enjôo do saputi.

A multiplicidade da Malacacheta

Os dois lados da lâmina

O perigo das encostas.

A aridez da Caatinga

As surpresas do Cerrado

A sombra da Mata Atlântica.

O trincado da sola

O cheiro do couro da sola

O mesclado da cola.


O estrume da vaca

A lama das estradas

O carro de boi.

As folhas do Chile

As sombras da Bahia

Os talos do Recife.

As raízes da restinga

As samambaias da noite

Os cavalos dos altiplanos.

O azeite do outono

As uvas do inverno

As laranjas da estufa

O temporão das águas.

O cume das montanhas

O estalo dos gravetos

A brasa do churrasco

A liberdade dos Pampas.

Os espinhos da Caatinga

O aluvião dos riachos

As pedras da corredeira

O reluzir dos átomos.

A rúcula fresca

A alface orvalhada

A tez da cebolinha

A alegria do cheiro da salsa.

Espantaram-se as folhas!

Evadiram-se os peixes

Aquietou-se a coruja

Calou-se o macuco.

O amargo da língua

O devir do poeta

As pétalas de fogo

Os rastros da neve.


Na sala dos jovens, o absinto

No quintal, a camiseta colorida

No depósito, a caixa de flores

Na feira, gritos de amores.

São folhas do ocaso

São relvas dos pântanos

São caules das palavras

São venenos das crises.

A gasolina expropriada

O tiner cheirado

A cola roubada

O futuro seqüestrado.

Abriu-se o mundo

Gerou-se o pranto

Secou-se o crisântemo

Fecharam-se os olhos.


Dormiu cedo a folha da Alumã

Secou cedo a sua amargura

Amenizou dores

E foi arrancada pelo homem.

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