Nossas cidades

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Guaratinga, a mais distante das cidades ?


Como se uma praga – mais que a vassoura de bruxa.

Como se um trator – tal qual um terremoto.

Como um pai desnaturado que deixa a sua terra e seus filhos,

Guaratinga foi abandonada durante décadas.

Mas esse abandono não foi fruto de um simples descaso, foi conseqüência de uma estrutura mental egoísta, um modelo de desenvolvimento, uma idéia nefasta que povoou as cabeças, os gabinetes das chamadas autoridades locais em aniquilar aquela terra, e conseqüentemente os seus cidadãos.

Guaratinga está ligada intimamente aos primórdios do Brasil. A região onde se situa o município pertencia à Capitania de Porto Seguro, criada pela Carta Régia de 27 de maio de 1534, marco inicial da nossa história.

A cidade teve origem com a chegada de famílias de Minas Gerais, responsáveis pelo crescimento inicial do arraial que foi denominado “Jaquetou.
O cacau “parazinho pele de ovo”, trazido das margens dos rios Pardo e Jequitinhonha, se proliferou. Esse tipo de cacau foi originário das lutas da Iara com o invasor que veio das “Oropa”, segundo o livro “Iararana” do poeta de Belmonte Sosígenes Costa, explicando o mito do nascimento do Cacau.

Em 31 de agosto de 1961 Guaratinga se tornou município, pela Lei nº 1.466 ao ser desmembrado de Porto Seguro, conforme o Diário Oficial de 01.09 do mesmo ano. Sua instalação se deu em 7 de abril de 1963, recebendo o nome de Guaratinga que segundo a língua Tupi significa “Garça Branca”. Guaratinga foi palco de muitas lutas e disputas por terras, grilagens e violência. Nas outras cidades da região também não foi diferente.

A diferença em Guaratinga está na forma como as autoridades locais, sugou, sangrou e secou as esperanças de uma comunidade nas ultimas décadas. Tão perto que é, Guaratinga parece a mais distante das cidades, a Sibéria do extremo sul, o lugar esquecido, excluída de todas as políticas públicas e das listas dos governos e de suas instituições. Basta um clique no site do governo e poderemos observar os índices da região e ali o quadro em que figura Guaratinga.

Diante de tantas ausências, temos noticias das ultimas sangrias em Guaratinga: Aos poucos o seu patrimônio material, as rochas que formam a sua paisagem destruída; seus granitos raros que desaparecem em poucos dias para enfeitar as mansões da Itália e de outros países. O rio dos Frades cada vez mais poluído, gritando por socorro.

Ainda imponente, a Pedra do Oratório vigia a cidade perguntando por seus filhos que não a vê nem descansa em sua sombra. Por ultimo, em nome da modernidade o atual prefeito mandou destruir a Praça principal, de palmeiras antigas, para erguer uma “nova.” Lá se foi mais uma parte da história da cidade. Quietos, ficamos pensando: Mas o que isso significa diante do que foi a destruição do futuro de Guaratinga, desde a sua criação?

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