DESORDENS DO PROGRESSO

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DESERTO E LABIRINTO

No deserto a terra é seca. No deserto verde não só a terra é seca, mas também a solidão do ar sem pássaros, sem olor, sem polinização, sem cheiro, sem vida. Até a chuva cai triste, sem sentido, pois não gera o fenômeno da criação, da gênese, próprios do mundo biológico, biofísico, bio-diverso.

No deserto a sobrevivência é um ato diário de luta e sofrimento; no deserto verde o único sobre-vivente é o eucalipto, que – curiosamente – já surge condenado à morte, ao corte, ao abate. No deserto não há labirinto. Existe a imensidão como único abismo para se travar uma luta sem vitoria; no deserto verde os talhões soturnos formam labirintos medonhos, a enganar qualquer vivente que ouse perambular seus caminhos sem planos, seu não-futuro, suas raízes sedentas. Tal labirinto, a sufocar as referencias Geo-culturais das antigas e novas comunidades, a ameaçar e sucumbir suas estórias de encantados, a natureza oculta dos fogos-fátuos, pedras de luz e estrelas cadentes.

No deserto verde, o labirinto dos eucaliptais impede qualquer perspectiva, olhar ou gesto que indique o horizonte. Sabemos nós que – homens e mulheres que somos – não vivemos sem horizontes, bem como ao perdemos as nossas referências históricas, as nossas lembranças de meninos, dos nossos antepassados e dos nossos lugares sagrados, perdemos a memória e o amor: um rio que seja, uma árvore que seja, uma casa, um monjolo, um moinho, uma olaria, um alambique, uma capela, um resto de mata, os campos de mangaba, o charco em que se planta o arroz, tudo ligando o que fomos ao que somos; lugares ou pontos cheios de significados e os seus nomes curiosos: quando dizemos “lá na Maurília”; lá na Boca do “Corgo”; no Putumuju; na Sapucaeira; no Bu; na Boca da Barra; no Lamarão; no Monte Pascoal; na Juerana; no Corre nu; no Ribeirão do Onça; no Puxim, nas três Barras e etc. falamos de nós mesmos e falamos a nossa língua.

Fiquemos então a imaginar: uma comunidade que somos, com os seus lugares sagrados, que nos une em laços sócio-culturais, que sustenta as nossas convicções religiosas, nossa visão de mundo e onde produzimos os nossos alimentos. De repente chega uma empresa com a sua lógica desenvolvimentista e num átimo, num breve instante, como uma bomba destruidora faz tudo desaparecer. Como num passe de mágica tudo é cerca, ilha ou prisão e a nossa única visão é a do labirinto, do deserto verde.

Permaneceremos perplexos até quando, num tempo que passa veloz em meio ao deserto verde, num labirinto sem fim?.

Na tentativa de recriar o mundo, depois de muita destruição, depois de imensos labirintos, depois de tanto desequilíbrios na cidade e no campo, agressões tão visíveis aos nossos olhos, um mundo paralelo é criado pela empresa a nos enganar, quando somos forçados a aceitá-lo como o nosso mundo. Porque parece inútil falar de um mundo que não se pode tocar, onde os nossos sentimentos, as nossas convicções e a nossa visão de mundo não se pode medir com nenhuma medida, nem pelo mundo do trabalho, porque o mundo do trabalho também para nós tem outro sentido – assim como tem outro sentido viver -, Nem pelo mundo de nós mesmos, que acreditamos e sonhamos juntos, a alimentar a esperança no futuro.

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