Da madureza do tempo

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“SEMENTES PERDIDAS”

Ele teve um sonho diferente e acordou cedo, encucado com aquilo que sonhara, mas ficou tranqüilo porque de planta e semente ele conhecia bem. Se soubesse ler – pensou – daria um livro ( ou um curta-metragem, diria depois um cineasta), mas deixa pra lá que só sei lê o tempo nas nuvens e no vento, quando estou atento. Esse seu pensamento lhe pareceu melhor, para abrir o canal que lhe conduzisse ao relato do que sonhara naquela noite calma.

Foi assim: um amigo seu, de longe e de cabelos longos enviara caixas de livros, muitos livros; quando ele passou a recolhê-los e a ordená-los de acordo método alheio, percebeu que em cada um deles havia símbolos que os definiam numa ordem diferente; chamou sua mulher de leitura e esta notou que nas caixas, como se fosse um endereço de remetente estava escrito “sementes perdidas.” Ao separar os livros viu que pequenas migalhas de sementes se grudavam à contracapa de um ou outro livro, como que protegidos por uma membrana transparente(algo parecido com plástico mas não era plástico).

No sonho a mensagem sobre as sementes perdidas vinha de alguma forma pelos livros e ao reunir ordenadamente letras por letras – ou melhor, livro por livro – ele percebera que nomes se formavam, nomes de sementes antigas, sementes dos antepassados os mais distantes das estrelas, como a pequena maíz ou como o trigo preto dos campos, o sarraceno, a dar vida ao Soba. Mais que isso, ele se viu impulsionado a plantar sementes em meio ao nada, sementes grudadas nos livros. E plantou livros!

Um a um em covas ligeiramente abertas, em sulcos leves, entre o pó e o suor. Um a um e deitados, outros abertos em páginas que contavam estórias de medo e de esperanças; em páginas que falavam de gente do sertão que nunca tinha visto o mar e de gente da grande cidade que jamais conheceria um vaga-lume na noite estrelada; paginas abertas com mapas desenhados pela guerra e páginas com relatos de lutas nas fronteiras, de gente fugindo da guerra e de gente voltando pra casa.

Ele plantou muitos livros e suando até encharcar o solo, viu brotar plantas que não sabia o que era, mas que refrescava a terra de um olor intangível e inexplicável e umedecia o chão fazendo de cada flor, a primavera e de cada fruto, o pão sagrado.

Então acordou em prantos e imediatamente foi correndo contar o sonho ao seu amigo, quando soube que o seu amigo havia viajado para longe, em busca de um sonho mais real: ganhar dinheiro na cidade grande, já não podia viver assim, sem dinheiro, a mirar pirilampos em noite escura. Ele então – perplexo – decidiu aprender a ler para contar o seu sonho em carta que chegasse até ao seu amigo retirante. E assim fez. E espalhou palavras-sementes.

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