Da madureza do tempo

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Era santa a chuva

Era quinta feira santa. E como todo ano, na quinta feira maior ele visitava o túmulo do seu irmão querido, que havia falecido há décadas. Esse era um período de reza e de chuva, prolongamento das águas de março a anunciar o inverno e dias de austeridade, lembranças de um tempo que não volta mais.

Ele não pôde sair muito cedo naquela quinta feira santa porque os seus filhos não eram tão dados a horas certas, sobretudo numa dia como aquele.
Como todo ano ocorria, havia sempre uma tolerância de espera já que ele conhecia os seus três filhos muito bem parecidos com ele, diga-se aqui. Logo de saída começou uma formação de nuvens que anunciava chuva e trovoada, mas estas não aconteceriam logo, enganando a todos na cidade aberta.
Pegaram a estrada de terra temerosos com um possível atoleiro, coisa que não veio a acontecer, como veríamos mais tarde.
Assim mesmo, ao chegar ao povoado pequeno, tão logo ele e os seus filhos pararam o carro, uma nuvem tempestuosa invadiu uma banda do céu e se derramou sem timidez.
Nesta altura ele já adentrava o lugar dos mortos, não exatamente como se pensa quando citamos um lugar assim, mas ele entrou vivo no cemitério com um dos meninos, tão vivos que receberam aquela chuva toda, naquele lugar inusitado, de velas nas mãos e fósforo no bolso pra não encharcar de água.
De posse de uma sombrinha colorida, o seu filho seguia-o a cada passo dentro do lugar dos mortos, numa arvore, num monte-cova, num alpendre de “sepultura de rico” num canto do muro do cemitério. Como se cada lugar desses evitassem encharcamentos.

No mundo das sombrinhas quando chove forte assim, dois seres olhando a chuva torrencial cair e forrar o chão de cores variadas, isso somente ocorre em cenas de película latinoamérica, pensou ele. E a chuva caía mesmo com vontade, a cântaros como lemos nos livros.
Ele sentia a chuva em sua camisa fina e em seus sapatos furados e o seu filho observava, vivenciando aquela mesma situação, mas tentando protegê-lo, tentando – em vão – fazer com que a sombrinha se alargasse e a chuva o molhasse o menos possível.

Era uma tarde fresca e boa de final de março, comentava, ao ver que do outro lado o azul do céu se apontava como aquarela entre nuvens altas e branquinhas.
Cessada a chuva, ele acendeu as velas uma a uma em diferentes sepulturas e em frente ao cruzeiro de reza, três velas foram instantaneamente acesas, como arremate daquela quinta feira chamada santa pelos cristãos.

Depois desse ritual anual na terra dos mortos daquele povoado, ele desceu até o centro da vila e lá cumprimentou velhos amigos.
E os seus filhos, num bar festejaram a vida, que da morte inexorável não poderiam enganar com festa.

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