MANIFESTO DA REDE CULTURAL BAHIA AO EXTREMO

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POR POLÍTICAS CULTURAIS E PELA AUTONOMIA

Companheiros trabalhadores da cultura, grupos tradicionais de cultura popular, artistas, ribeirinhos, estudantes, representantes indigenas, comunidades negras, povo de santo, amigos da Secult, Pontos de Cultura, cidadãos baianos, presentes nesta Conferência:

A REDE CULTURAL BAHIA AO EXTREMO, é um movimento livre, em rede de articulação política-cultural no extremo sul da Bahia, presente desde 1997, quando foi criada. Ela reúne entidades, grupos culturais e cidadãos livres, que fazem das artes e da luta cultural sua principal motivação para compreender e atuar no mundo.

Estamos em Território sagrado. O povo de santo nos recebe em saudação fraterna; Os Tupinambá, na memória de caboclo Marcelino e na bravura de Babau, também nos saúda em seu território.

Por ser esta Conferência, a conferência das culturas, não podemos fechar os olhos para os conflitos pela posse da terra e pelo domínio territorial que ocorre em todo o litoral até o Monte Pascoal, porque tais conflitos revelam como se deu a ação colonial secular; a tentativa de imposição cultural e a dominação política e econômica, que afeta a todos os pequenos, não venceu o espírito e nem as culturas, não fez tombar os toténs sagrados da dança nem venceu a alegria. Porém o fazer cultural e as práticas simbólica do viver permanecem ameaçadas.

Por ser esta Conferencia, resultado de um processo planejado em todo o estado, que começa agora a dar novos passos, é que temos o compromisso de refletir as fragilidades desse processo e apontar caminhos.

A reflexão da REDE Cultural Bahia ao extremo é que as ações que o governo baiano vem implementando no estado, desde os programas de fomento da Secretaria Estadual de Cultura, até a discussão da proposta de criação do Sistema Estadual de Cultura, precisa ser repensada e fortalecida, agregando novas proposições a partir do que a Conferência indicar. Temos constatado que os Editais tem sido o mecanismo utilizado pela Secult para mensurar a sua ação, porém os resultados não revelam avanços no meio produtivo da cultura. O editais esbarram na burocracia, como acontece com os problemas dos Pontos de Cultura e com o projeto Territórios Culturais, que caducou e até o momento a Secult não tem respostas sobre o que realmente está acontecendo.

A Rede Cultural Bahia ao extremo tem críticas também a este processo nacional, que vem arquitetado de cima para baixo e não oferece abertura para o enfoque das reais necessidades regionais, bem como não apresenta em suas análises os dados reais sobre a situação cultural do estado. Mas estamos em casa, vamos sentar e resolver com maturidade e responsabilidades.

Para a Rede Cultural, os representantes do governo para a cultura não levam em consideração os movimentos livres nos diferentes Territórios de Identidade, aqueles que de uma forma ou de outra não se adequam ao modelo exigido pela Secult ou não tem representação jurídica formal, sendo de caráter de movimento ou agremiação cultural tradicional, com seus mestres, Griôs e dirigentes independentes, sem a injeção de recursos governamentais; apenas cidadãos comuns que representam o seu modo de vida pelas artes, pela religião e cotidiano cultural intensos, sem representação alegórica ou espetacularizada do seu fazer artístico.

São estes núcleos, células ou agremiações comunitárias de cultura que é foco da ação política-cultural da Rede Cultural Bahia ao extremo. Pessoas que estão nas fronteiras, sejam elas fronteiras geográficas(localidades sem nenhum acesso às informações e à ação de programas governamentais de cultura) ou fronteiras politicas(localidades em que os cidadãos não tem bases ou quase nenhuma base organizacional), onde a mobilização comunitária não expressa empoderamento e as suas raízes culturais parecem perder-se na medida em que o chamado progresso se avizinha.

Mesmo com as críticas ao processo de articulação que a Secult promove, a Rede Cultural prevê a importância de intensificar o diálogo com o estado, na perspectiva de vê contempladas as suas reflexões e propostas para uma articulação cultural mais crítica e condizente com as diferentes realidades.

Após a promulgação da CF de 1988, o surgimento de marcos legais e as orientação do estado brasileiro a partir do governo Lula deu novos contornos às ações e programas culturais no Brasil.

Não mudou a política, porém o acesso se ampliou, mesmo com as dificuldades e burocracia de sempre.

O movimento cultural – que fora perseguido após o golpe de 1964 – de forte conotação política e que pregava mudanças radicais, tentava erguer-se a muito custo, enquanto novas formas de fazer cultura e um novo re-ajuntamento de companheiros acontecia simultaneamente em diversas regiões do País.

Num recorte para o extremo sul da Bahia, vimos a partir da década de 1990 agrupamentos culturais surgirem, ao largo de qualquer incentivo do poder público, ao contrário, os resquícios da ditadura imperava, aliados ao preconceito e temor de mudanças provocadas pela vontade das pessoas em fazer arte e cultura.

O partido, que era um nincho de resistência, deixou de ser há muito tempo.
O nosso exercício principal era a confluência entre companheiros e suas expressões culturais de maneira que levasse a um posicionamento político-cultural, a influenciar e confluir novas ideias. Desse execício nasceu A REDE CULTURAL BAHIA AO EXTREMO.

Nesse meio tempo ocorreram momentos importantes que gerariam no futuro o que estamos refletindo hoje.
A eleição de Lula em dois mandatos.
A eleição de Wagner na Bahia.
A adoção de modelos de intervenção política que levasse em conta pedagogias diferentes e processos mais participativos.
Isso não quer dizer que é o momento sonhado por nós e nem representa ainda o rompimento de entraves burocráticos ou sentimentos discriminatórios que tanto combatemos.
A re-articulação do movimento autônomo é a nossa meta. O fortalecimento da ação cultural em rede, por nós sustentada, com leveza e crítica permanente é o nosso presente.

Neste solo sagrado, da candeia de luz que vem dos Terreiros e unidos na memória do Caboclo Marcelino e na bravura dos guerreiros da Serra do Padeiro,

Avançaremos !

Territorio extremo sul, 27 de novembro de 2009.

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