Devorar o mundo

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Vomitar o mundo

-Erahsto Felício *

Parece estranho ter que dizer isto, mas há certos momentos da vida em que precisamos vomitar o todo que comemos. Precisamos refazer o mundo que devoramos. É claro que há um valor simbólico nesta metáfora – do contrário não poderia ser metáfora. Entretanto, o único significado que precisa ser decodificado é: o que significa devorar o mundo?

Desde cedo aprendemos inúmeras experiências que se tornam parte de nós. Grande parte delas nós carregamos em nossa memória. São experiências que delineiam nosso caráter, que orientam nossas opções de vida, que instruem nos inúmeros “o-que-fazer” que temos. Estes aprendizados são também um apreender, uma assimilação mental e mesmo uma apreensão dos significados. Cultura, política, gostos, concepção de beleza… tudo isto nós apreendemos depois do nascer.

Pois bem… há uma história de um orixá que nos ensina algo sobre devorar e vomitar…

Laroyê Exu!

Olodumare determinou que Orixá Obatalá desse filho a todos. Orumila e sua esposa, chegando a casa de Obatalá, disseram que queriam ter filhos. Obatalá disse que não era hora ainda. Orumila insistia: eu quero, eu quero, eu quero. Obatalá respondia: não recomendo. Orumila perguntou sobre o filho que estaria na porta, prestes a vim ao mundo. Obatalá disse que não recomendaria. Orumila insistiu que queria. Obatalá então disse para por a mão sobre o filho à porta do mundo, ir para casa, fazerem amor. Após 11 meses nasceu uma criança, que chegou ao mundo cantando. A criança dizia: quero comer. Sua mãe perguntava: o que queres comer? E a criança respondia: os pássaros. E a mãe, então, trazia todos os pássaros para a criança. No outro dia a mãe pergunta: o que queres criança? E a criança responde: quero comer. O que quer comer? Pergunta a mãe. E a criança responde: quero comer os frutos. E a mãe dá todos os frutos para ela comer. E o mesmo ocorreu com as raízes, os peixes, os mamíferos e etc. Orumila vendo aquela situação foi ao oráculo de adivinhação (Ifá) e perguntou o que deveria fazer. O oráculo respondeu que deveria fazer um Ebó, um trabalho grande. E feito este trabalho, foi concedido à Orumila uma espada de cristal.

No sexto dia a criança continuou: mãe, quero comer. Mas a mãe disse: não há mais nada para comer. E a criança respondia: tem sim, você! E a mãe se deixou devorar alegremente para satisfazer a criança. Esta criança é Exu. E ele continuava: quero comer! E Orumila disse: mas não há nada para comer. E a criança retrucou: tem sim, você! E Orumila pegou a espada cortou a criança em 201 pedaços, mas um pedaço caiu no outro plano do Orum[1] e se transformou novamente em Exu que devorou tudo. Também lá chegou Orumila que o cortou em 201 pedaços novamente, mas um pedaço caiu no outro Orum. E esta cena se repetiu em todo os demais planos até chegar no que vivemos, onde também Exú devorou tudo. Orumila chegou e disse: não há mais nada para comer, eu te cortarei e você não poderá cair em outro plano. Então Exu diz: pai, vamos conversar. E conversaram. Exu prometeu vomitar tudo que tinha engolido: as plantas, os animais, as frutas… tudo e Orumila não o mataria. Mas de que Exu iria cuidar? O que ele faria no Orum? Ele então disse que cuidaria da comida. Que tudo que se comesse, ele comeria primeiro[2]. E que cuidaria da missão de ir e vir entre os Oruns e o Ayê, levando oferendas, mensagens dos humanos aos Orixás. E assim foi. E assim é ainda hoje.

Laroyê Exu!

Na cultura judaico-cristã também há um personagem que cumpre uma missão, junto com Deus, de devorar e vomitar todas as coisas do mundo. Claro, trata-se de Noé, que em sua arca colocou todos os animais e plantas do mundo enquanto Deus fazia cair um dilúvio mortal sobre a terra. Também Noé após o dilúvio devolve todas as coisas que engoliu. Penso que esta experiência tratada misticamente por tradições tão distintas nos oferece uma idéia essencial a renovação política e cultural em nosso cotidiano.

Como Noé junto com Deus ou como Exu e sua fome, estamos sempre a devorar as coisas ao nosso redor. Só que diferente de Noé e Exu que devolvem tudo que devoraram, nós preferimos muitas vezes sofrer com uma grande indigestão a devolver para o mundo o que ao mundo pertence. Vomitar o mundo é também um processo de refazê-lo. O mundo feito por Noé era diferente do mundo destruído pelo dilúvio, o mundo vomitado por Exu era diferente do que aquele que devorou. Não precisaríamos também refazer o mundo que consumimos diariamente? Com tantas informações engolidas “goela-à-baixo” dos jornais, da internet, da televisão… não precisaríamos também vomitá-los? E se o fizermos, também não estaremos refazendo o mundo que devoramos diariamente?

É… acho que depois de tanto tempo engolindo coisas…. está chegando a hora de vomitar. Por isso, nunca será demais dizer:

Laroyê Exu!

* Erahsto Felício é historiador e professor do Ifba em Eunápolis.


[1] O mundo espiritual dos orixás é composto de novo planos chamados Orum – terra dos Orixás – e a terra dos humanos é chamado de Ayê.

[2] Por esta razão antes de qualquer trabalho para os outros orixás, é necessário antes fazer trabalho pra Exu.

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