Eunápolis tem medo da memória

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Uma homenagem a Ariston Reis –

Todos sabem mas  às vezes esquece-se de valorizar, que Eunápolis é uma cidade de baianos. Sabemos da proximidade com Minas, pelo vale do Jequitinhonha e da ligação com o estado do Espirito Santo. Na verdade aqui é parte do Mesovale, a grande região do vale do Jequi e Mucuri, uma região imensa em que nós, os baianos e  os ribeirinhos do vale do jequi formatamos na caminhada e na aventura, após os séculos da infame conquista. Os primeiros que chegaram por aqui vieram descendo o rio Jequitinhonha, nas trilhas criadas pelos desbravadores, pelos romeiros e pela aventura dos ciclos econômicos.

Os baianos do norte viram neste lugar um bom local de morada e de comércio, fugindo da seca do sertão da Bahia e do assombro do flagelo vivido pelos seus avós ou entes queridos. Os irmãos Ariston, Hermes e Rogaciano Reis são parte desse movimento. Com eles outros Baianos do norte, alagoanos e sergipanos  vieram parar aqui e muitos outros, exemplificam bem essa fase  migratória. E aqui eles e suas famílias construíram comercio, relações de amizade e a ideia de uma cidade tranquila.

Em 1973 a rodovia BR 101 é inaugurada. A rodovia abre novas perspectivas e amplia o movimento migratório,  já com a presença de capixabas que passam a explorar a mata atlântica, extraindo e exportando madeira de lei. A estrada vai facilitar tudo. Itabela, Itamaraju e Eunápolis são os portos de segurança dos capixabas madeireiros e bons no trabalho com maquina e com caminhões. Dessa confluência de grupos familiares em migração é que se constituiu o tecido social eunapolitano e  a contribuição de personalidades que marcam essa historia.

Seu Ariston Reis, falecido recentemente, é uma dessas personagens que merecem homenagens e muito respeito.

Lamentavelmente constatamos que Eunápolis tem ‘sina’ para esquecer sua memória – há de se averiguar isso. Creio que o marco desse ‘mal estar’ da des-memorialização começa  quando Eunápolis entra em sua modernidade, que é a emancipação. Com a emancipação parece que as autoridades locais desejam passar uma borracha no passado e inventar o presente sem a raiz das memórias.  Ali a memória começou a ruir e o passado esquecido. Porém é um passado tão marcadamente próximo, porque as sequelas e as vicissitudes dele são quem nos condena e tatua a nossa presença na cidade.

Depois vieram abaixo vários prédios que simbolizavam esse tempo: o Grande Hotel na Avenida Porto Seguro, o Clube Social na Rua Joana Angélica, e o Cine Coral na Avenida Duque de Caxias,  três símbolos dessa mudança sem memória. A queda desses três espaços simboliza a perda da memória.

E após isso, Eunápolis deu lugar ao novo de forma estranha, sem sentimentos e sem esperanças.

O lugar e a cidade são as pessoas. Creio que alguém tenha dito isso. Mas resta saber quem são as pessoas e o que elas querem na cidade construída. Porque estamos mentalmente presos ao colonialismo e desse mal sofremos em nosso tempo moderno. O símbolo da colonização é a conquista e a exploração infinita. Essa simbologia está marcada mentalmente em muita gente em que convivemos hoje. E esse é o nosso mal.

Por isso – também por outros motivos – esquecemos de homenagear com lamentos e saudade, com sentimento de perda da memória, de pessoas como “seu” Ariston Reis. Sobre quem nossos filhos e netos falarão nas escolas, quando o assunto for a história local? Onde depositamos os nossos arquivos, os quadros mais vivos de nós mesmos?

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