Cidadania cultural e direitos tem que valer

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Plano Diretor, Estatuto das cidades, Conselhos comunitários e Planejamento urbano são parte dos marcos orientadores para a instalação de projetos de impactos sociais.

Opinião por  Erahsto Felício de Sousa

Para a reportagem não ter conseguido contatar o viola de bolso, é porque a reportagem é muito ineficiente, para dizer o mínimo. A instituição fica aberta a semana inteira, tem site no ar, responde e-mails rapidamente, tem em seu quadro pessoas reconhecidas publicamente.

O jornalismo pode ser mais sério e dizer que tem posição contrária à posição do grupo, mas dizer que não conseguiu falar é falso.

Por outro lado, vejo em que pé produzimos opiniões. Entrevista-se 09 pessoas, sete a favor, dois não são contra, e acha-se que resolvemos a situação.

Planejamento urbano, Plano diretor urbano, não é questão de bater papo com pessoas e resolver. É lei e precisa ser seguida. Precisa de articulação, participação e reflexão entre sociedade civil e estado na ordenação do espaço urbano. Só que ainda há muito patrimonialismo nos governos brasileiros, do municipal ao federal. O gestor crê que deve ser construído um prédio em uma praça (como se faltasse espaço na cidade para construir a tal academia) e ele o faz! Para isto não precisa seguir plano diretor, conversar com a comunidade… nada.

Acredita-se que o equipamento estatal é uma extensão de sua casa, onde pinta-se a parede da cor desejada, onde troca-se os móveis à menos vontade. Contudo com o que é público a coisa é diferente. Não se poderia fazer desta forma.

E qual o papel do jornalismo? Invés de estudar o estatuto das cidades, ler o plano diretor da cidade (ou criticar caso este não exista), lutar pela democratização da gestão do espaço público, não… é preferível entrevistar nove pessoas e induzir a opinião pública a acreditar que a maioria está de acordo. Não se pensa em uma política de patrimônio (ainda que a cidade seja recente, existem patrimônio culturais e comunitários), na história do lugar (assaltado pelo pensamento modernizador e tolo) ou no significado e necessidade das praças públicas como lugar de encontro, passagem, descanso, brincadeira, etc. O problema, jornalistas, é que sem plano diretor e participação popular as coisas acontecem assim: hoje um gestor faz um puxadinho na região sudoeste da praça, amanhã sai este gestor e entra outro que inventa um outro puxadinho para uma cabine da PM na região noroeste da praça… depois entra outro e transforma a praça inteira em um quarteirão da prefeitura! E o povo perde uma praça em uma cidade que já não tem tantos espaços públicos!

Vamos ter que lembrar às crianças que jogam bola no campinho improvisado, aos idosos que saem a caminhar e se encontrar diariamente na Praça do Gusmão. Talvez tenhamos que rever algumas fotos do Viola quando pintamos a praça – ignorada pelo poder público -, quando fizemos reuniões e atividades culturais, quando reunimos para fazer a caminhada cultural. Revitalizar uma praça não é o mesmo do que diminuir sua condição de praça – pois é isto que ocorreu. Revitalizar significa dar mais vida de acordo com os usos e costumes daqueles que usam e vivenciam a praça.

Por fim, a capacidade crítica de uma instituição como o Viola de Bolso deveria ter  outro tipo de exposição na mídia. Quer dizer, vivemos numa democracia com tão pouca participação da sociedade civil, numa cidade com tão poucas instituições que promoção social atuantes capazes de intervir na vida política, e quando um destas aciona o poder público, chamando sua atenção para o dever da participação popular… ah, esta instituição é exposta como mera crítica da administração municipal.

Felizmente ainda há luta na sociedade civil. Infelizmente ainda há um jornalismo que não quer compartilhar as muitas vozes e opiniões políticas da sociedade. Prefere dizer que “não conseguiu falar” com o outro-do-poder.

Prof. Msc. Erahsto Felício de Sousa
Professor do IFBA, Campus Valença
Ex-professor do IFBA, Campus Eunápolis
Militante Cultural do Viola de Bolso

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