Uma coisa puxa a outra assim é a cultura

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Caminho só caminhando juntos

Um ano depois que o Viola de Bolso criou o Ponto de Cultura, no local em que hoje é Espaço Cultural do Viola, decidimos em nosso Planejamento anual, a cada ano escolher uma temática ou linha de ação para atuar, como forma estratégica de garantir a efetivação de ações formativas intencionais e alcançar a materialidade das propostas no seu Plano de trabalho. Ao fim de cada ano, cotejar com o plano o que foi realizado e encarar os desafios futuros. Pois bem, foi assim que construímos uma linha do tempo que assegurasse a contemporaneidade1 das temáticas, sempre focando o locus de atuação e presença: a comunidade.

Este ano 2017 para a oitava edição da Semana de Arte escolhemos o tema “Patrimônio cultural, nosso bem comum”, a merecer a atenção de todos nós, sobretudo chamar o poder público para a responsabilidade que tem na proteção, salvaguarda e manutenção da memória histórica dos bens materiais e imateriais de nossa cidade.

O tema escolhido não foi á toa nem de forma aleatória, a escolha é fruto da caminhada e de uma sequencia de eixos articulados no bojo da luta pela garantia das políticas públicas de cultura e da afirmação do que concebemos enquanto ação política-cultural ao longo desses anos.

Muitos poderiam dizer – e estamos cientes disso, porque estamos nessa luta – ou perguntar: – por que o Viola não escolheu o tema da luta contra o preconceito e a discriminação, ou o tema do desmantelo das políticas sociais, etc, tão em destaque nesse momento do país?

Porque estes temas estão presentes na ação cotidiana do Viola, seja afirmando categoricamente a sua opinião e indignação contra aqueles que estão desmantelando os direitos sociais, seja recebendo os diversos grupos sociais possíveis, em seu espaço de cultura, para debater, fortalecer propostas e traçar enfrentamentos diretos. Passou por aqui diversos grupos realizando diferentes eventos seja de jovens do HIP HOP, Seminários com os temas da Homofonia, da afirmação LGBT, da lutas das mulheres pretas na Bahia; palestras sobre Cultura e turismo regional, encontros de formação de professores; eventos literários com os temas de gênero e etnia, cultura popular e cidadania. Sessões de cinema para jovens estudantes das escolas públicas municipais com abordagens sobre educação, memória e linguagens artísticas, meio ambiente e o sagrado feminino.

Além disso, tivemos a oportunidade de realizar duas ações culturais de diálogo e criação cultural: Uma, no assentamento Baixa Verde, local de pequenos produtores; outra, em Guaratinga, por ocasião de sua festa de aniversário da cidade.

Um tema, como eixo que é e deve ser, puxa outro que se articulam entre si e anima a nossa caminhada.

Assim foi em 2010, quando o eixo foi “Tecer a Rede dos Pontos de Cultura”, dada a sua importância no cenário da cultura na Bahia, após a descentralização das políticas culturais do governo estadual2 que lançou diversos editais de seleção de projetos culturais e pautou uma ação gradativa de construção da política pública de cultura no estado. Por isso, a nossa ação se vincula a isso, tendo o Viola de Bolso inclusive participado diretamente da executiva estadual dos Pontos de Cultura na Bahia.

Já em 2011 o tema da cidade nos atraía, pensando as tantas mudanças que iam se concretizando e a chegada de novos atores sociais, com a consolidação da Uneb, do Ifba por um lado, e o presídio, as inúmeras empresas terceirizadas da Veracel, por outro.

Quando foi 2012, um projeto articulado por outras parceiros do campo da cultura, abraçamos o projeto Territórios Culturais, ampliando a ação no extremo sul da Bahia.

Em 2013 a Ação Griô Nacional, um mpvimento de reconhecimento e luta pela valorização do saberes tradicionais da memória oral, foi o nosso tema. A Associação Grãos de Luz e Griô, sediada em Lençóís-Bahia, foi a nossa principal parceira, quando diversas vezes estivemos na Chapada Diamantina e, ativistas da Ação Griô vieram no espaço cultural do Viola, em oficinas, vivências e intercâmbios culturais.

Em 2014 o tema da Memória cultural volta com força e de forma mais planejada, vez que o Viola de Bolso estava com uma boa equipe de atuação que tinha clara a necessidade de realizar intervenções artísticas urbanas em Eunápolis que chamasse a atenção de sua população e deixasse resultados do ponto de vista organizacional. Desse movimento surgiram diversos coletivos culturais.

Chega em 2015, celebrar os 30 anos do Viola de Bolso era imperativo. E foi muito bom. Mas foi um ano que exigiu muito esforço da equipe do Viola, porque a pauta política era a consolidação do Sistema municipal de cultura(smc) e todos os seus instrumentos de controle social, de proposição de política pública e de futuro. Embates, fragilidades, falta de visão política e o desinteresse do poder público, fez com que muita coisa não andasse, apesar das conquistas do ponto de vista dos marcos legais.

Foi em 2016 que o tema história local, leituras do mundo possibilitou refletir sobre a historia local, o papel da escola nessa intervenção e a situação da cidade, numa perspectiva de se situar no mundo. Os projetos do programa Mais Cultura nas escolas foi tema de nossas discussões também e rendeu boas experiências. Daí que apareceu muito presente a reflexão sobre o patrimônio cultural de Eunápolis e a fragilidade com que os elementos dessa cultura material e imaterial está se perdendo. Essa é a nossa discussão no momento.

1 Falando em contemporaneidade, recentemente um amigo nosso declarou em sua página de Faceboock , ter ficado chateado com uma pessoa que, em uma mesa de bar disse que “o viola de bolso só canta músicas velhas, música de rio, de mato, coisas de trinta anos atrás” e “não é contemporâneo, não renova”, etc. Ao comentar essa fala em sua página, muitas outras pessoas reagiram com espanto e inclusive indicaram ao declarante da mesa de bar, que visitasse o espaço cultural do viola de bolso e olhasse de perto o trabalho do Viola no campo da literatura, da música e da educação, que reúne jovens estudantes, crianças e professores das escolas públicas da cidade.

2 A ida de Juca Ferreira para o minc e a gestão de Márcio Meirelles na Secult Bahia, possibilitaram a oxigenação do movimento dos Pontos de Cultura em todo o estado, apesar de uma reação dos ‘artistas’ da capital, contra a descentralização dos recursos(mais dinheiro para a cultura no interior).

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