pregões quase cantiga

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Narrativa da infância, em 09 de novembro, sexta feira da consciência negra:

Um bairro dr. Gusmão de pretos

Seu Anacleto era padeiro na praça dr. Gusmão. Um preto forte, altivo e focado em seu ofício. Salvo engano, seu Anacleto tinha uns seis filhos, a maioria mulheres e muitos agregados, trabalhadores na padaria e no comércio de secos e molhados que ele ainda tentava manter em atividade.

Um dos seus filhos, Adalberto é um grande amigo de infância e juventude. Hoje ele mora no Arraial D’ajuda.

Lembro dele, da padaria do seu pai e dos pregões e dos seus irmãos. Ficamos amigos pelo grande fato de ser em sua casa a única que havia chegado a modernidade, a TV preto e branco, em 1970.

O movimento na casa de seu Anacleto era intenso, seja pela TV que encantava a todos, seja pelos pães cheirosos que atraiam crianças e adultos ali. Lebro muito dos pregões já que no povoado onde eu morava não havia a necessidade deles. E Adalberto era um exímio no cantar pregões de manhãzinha pois o seu pão saía quentinho de manhã e o anuncio acordava as pessoas.

Pregões são aquelas palavras cantadas pelos vendedores de rua ou de feira que repete-se alternadamente ou não de maneira renitente, que nunca é chata mas engraçada às vezes. Eu sempre achei bonito e quando vim morar aqui nessa cidade, é o que mais havia impressionado, pois sempre levantava com eles.

Outro lembrar matutino e travesso é buscar no fundo, as palavras e diálogos dos irmãos de Adalberto; sem saber porquê, eles usavam um dialeto, talvez inventado naturalmente ou oriundo de suas raízes ancestrais, que para mim eram estranhos mas fascinante, porém para toda a família, eram como conversavam entre si. Hoje eu atribuo aos costumes e falas ancestrais da família, muito embora tratvamos aquilo com as nossas meninices. Do que lembro assim:

Para eles, bicicleta era baputã; picolé era tibodê; formiga era zunumiga; pão era panpaan; urubu dizia ununbuu e andar era datimaan(escrevo como eu ouvia e pouco entendia) e uma série delas que eles falavam entre si em tom de diálogo sem usar quase nada do nosso portuga. Adalberto era quem traduzia para nós e todos divertíamos, pois até o som da voz era diferente.

Com o passar do tempo, a Tv mudou tudo….

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