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Essa é a certidão de óbito do Circo Dallas?

Uma história de quatro décadas iniciada por Luiz Milton Lago pode ser encerrada pela falta de sensibilidade de governos com o setor cultural durante a pandemia

Por Aléxis Góis

A pandemia atingiu diversos setores da economia, mas alguns segmentos parecem ter sido atingidos mortalmente. Os empreendimentos culturais foram um dos primeiros a serem afetados e, mesmo com o avanço da vacinação, ainda encontra dificuldade para retomar as suas atividades.

Enquanto grandes empresas, que têm um estoque suficiente de capital ou acesso facilitado a fontes de financiamento, já ensaiam seus primeiros eventos-teste, os pequenos negócios, aqueles dos quais muitas vezes é a única fonte de sobrevivência dos artistas, estão sendo sufocados pela falta de sensibilidade e o descaso de autoridades que seriam responsáveis por fomentar à cultura.

Um caso emblemático é o do Circo Dallas, que tem quatro décadas de história e considerado pela Secretaria Estadual de Cultura da Bahia como o mais antigo do estado. O circo, além de ser o lar de uma família de mais de 30 pessoas e de quatro gerações de artistas circenses, se tornou na última década em um equipamento cultural itinerante, abrigando eventos de música, dança, cinema, teatro, encontros de entidade de circo, intercâmbios, além de campanhas de vacinação e tudo mais o que fosse solicitado a Luiz Milton Lago, dono do circo e de um enorme coração e conhecido também como Palhaço Chupeta.

Paralisado durante a crise sanitária em uma cidade no interior de Sergipe, não contou com o apoio da prefeitura para conseguir manter o mínimo de dignidade. Teve se refugiar em um terreno da Igreja Católica cedido por um padre para conseguir abrigo. Enquanto isso, as mãos que estavam acostumadas com o trapézio, malabares, entre outras artes circenses, tiveram de se virar para colocar o pão na mesa.

Aproveitando do carro de som utilizado para a divulgação dos espetáculos, os artistas saíram pela cidade para distribuir gratuitamente alegria e vender maçã do amor, pipoca e até ovo para manterem a lona em pé.

Ao mesmo tempo, a Lei Aldir Blanc e outros mecanismos de socorro ao setor cultural durante a pandemia estavam sendo colocado nas ruas. O Circo Dallas não ficou parado e correu atrás de todas as oportunidades. 

Conseguiu ser aprovado com o projeto “Causos do Palhaço Chupeta” dentro do 8ª edição do Calendário das Artes 2020, que resume algumas das histórias do livro biográfico de seu Luiz e se tornou uma espécie de seu legado vivo. Mas o valor do prêmio, menos de dois salários mínimos, como diria o próprio Palhaço Chupeta, não deu nem para melar a cara. E de alívio para o Dallas não passou disso.

Um vídeo sobre a situação dos artistas durante a crise sanitária, “O Circo na Pandemia” foi aprovado dentro do Edital Prêmio Funarte RespirArte com uma das notas mais altas, mas o Dallas, apesar de ter enviado todos os documentos necessários, nunca viu o valor do prêmio. O próprio subsídio da Aldir Blanc, que o Dallas também deu entrada, também nunca entrou na conta do circo.

No meio de toda essa situação, o padre requisitou de volta o terreno, depois de meses de uma temporada de cessão que se estendeu muito além do previsto, pois a obra de uma nova paróquia iria começar. Tudo isso abalou o enorme coração do Palhaço Chupeta. “Nunca antes na história fiquei tanto tempo parado com circo”, afirmava. E olhe que ele enfrentou o fim de vários circos e sempre ressurgiu das crises.

No final de 2020, seu Luiz sofreu uma parada cardíaca e teve de passar por uma cirurgia às pressas. Alguns meses depois, em abril, as piadas rápidas e certeiras do palhaço deixaram de ser proferidas e Chupeta levou seu espetáculo itinerante para junto das estrelas.

Apesar do falecimento de seu principal mastro, o Circo Dallas ainda se propôs ficar de pé. Além da dor e da saudade, restava a esperança de um projeto aprovado no Edital Setorial de Circo do Fundo Cultura do Estado da Bahia realizado em 2019, com o título “Avante Circo Dallas!!!!”, que parecia prever a força (e os recursos financeiros) que os familiares precisariam para manter vivo o legado de seu Luiz.

Um longo processo burocrático se seguiu ao longo de dois anos, com análise prévia, recursos, análise do mérito e ajustes para a assinatura do contrato. O circo conseguiu passar por uma peneira que muitos outros projetos não conseguiram.

No entanto, em setembro, a Secretaria de Cultura da Bahia preparou uma comissão para reanalisar as propostas aprovados, agora sob a luz do distanciamento social, mesmo em descompasso com situação da pandemia, que deu sinais de recuo e os próprios governos decretam até o retorno às aulas presenciais em escolas públicas.

Ainda em luto, com as lonas baixadas e seus artistas desenvolvendo outras atividades para sobreviver, o Circo Dallas recebeu mais um golpe neste sábado, 16 de outubro de 2021. Foi publicada a Portaria Conjunta SECULT/FUNCEB/IPAC/FPC nº 004 com uma lista com mais de 30 desclassificados (mesmo após a aprovação anterior) dos editais setoriais. 

Sem a perspectiva de novos editais pelo Governo da Bahia e muito menos em âmbito federal, esse recurso estava sendo visto pelos artistas como um fôlego para a retomada das atividades, depois de ter de vender boa parte dos equipamentos para sobreviver e os artistas se espalharem por outros trabalhos.

De acordo com informações de Tiago TAO, responsável pela elaboração do projeto, os herdeiros tiveram dificuldades para conseguir alterar o proponente do projeto, que era seu Luiz, após apresentar o documento que atestou o seu falecimento. Ironicamente, a publicação no Diário Oficial pode ser a certidão de óbito do próprio Circo Dallas.

*Aléxis Góis é autor do livro “Palhaço Chupeta: Histórias e Causos sob a Lona do Circo Dallas”, editado pela Cambuí Produções

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