“Recordo-me de uma assembléia de trabalhadores,
nas minas da Bolívia, já faz um
tempinho, mais de 30 anos: uma mulher
lançou-se entre os homens e perguntou
qual é nosso inimigo principal. Escutaramse
vozes que respondiam: ‘o imperialismo’,
‘a oligarquia’, ‘a burocracia’… E ela, Domitila
Chungara, esclareceu: ‘Não, companheiros.
Nosso inimigo principal é o medo, e o levamos
dentro de nós.’ Eu tive a sorte de escutá-
la. Nunca esqueci”.
Eduardo Galeano
Uma mulher das minas, dona de casa e com pouca escolaridade desafiou a ditadura militar em seu país na década de 1970, os preconceitos da comunidade internacional e principalmente os seus próprios medos. O ano era 1975, quando a boliviana Domitila Barrios de Chungara, dirigente sindical do Comité de Amas de Casa del Distrito Minero Siglo XXlI, foi enviada à conferência mundial do Ano Internacional das Mulheres, na Cidade do México, com a missão de denunciar os massacres e a violação diária dos Direitos Humanos nas minas da Bolívia.
Trouxe a público, por exemplo, o massacre de San Juan, em 1967, quando o ditador René Barrientos ordenou o ataque do exército contra as comunidades mineras de Catavi e Llalagua. Dezenas de trabalhadores foram mortos, e Domitila, que estava grávida, foi presa e torturada até perder seu filho. Seu discurso calou o público elitista da conferência e entrou para a história. A educadora brasileira Moema Viezzer estava presente, entendeu a importância do que ouvia e gravou tudo o que disse a líder sindical boliviana. O depoimento resultou no livro “Si me permiten hablar” que conta um pouco da história e das condições sociais das minas, que enriqueceu tantos países, mas que só deixou miséria e monções de pobreza ao povo boliviano. O livro foi traduzido em todos os idiomas e a trajetória de luta de Domitila Chungara correu o mundo. A coragem e força dessa mulher foi tão grande que, no Natal de 1978, foi a La Paz, com mais quatro mulheres lutar pelos direitos que seus maridos, que, por trabalharem até a exaustão, não tinham tempo nem energia para lutar.
Juntas, essas cinco mulheres e uma penca de filhos, saíram de suas casas dizendo que iriam derrubar a ditadura. Era difícil de acreditar. Foram às ruas e iniciaram uma greve de fome. Um sacerdote se juntou a elas. Mas derrubar uma ditadura ainda faltava muito. No entanto, mais pessoas se juntaram à causa e em pouco tempo tinham mais de 1.500 pessoas. Depois de algumas horas, a notícia correu e os manifestantes pacíficos já eram milhares. 23 dias depois das cinco bravas mulheres começarem a greve de fome, as ruas, as diferentes cidades da Bolívia foram ocupadas por manifestantes.
Outro governo militar chegava ao fim.

Deixe um comentário