Lucas Leite mantinha uma fé inabalável na justiça, digo ‘mantinha’ porque ele alimentava essa fé, dia a dia, cultivando esperança e luta sincera, sem rodeios. Como? Na militância permanente e na alegria desmedida. Um “hermano sincero”, diz a poesia.
E claro, ao lado dele, a gente não precisava dizer nada disso, porque as coisas do amor e da vivência nunca são ditas, são vividas.
Ele acreditava e lutava pela democracia e pela soberania popular, a partir da autonomia do campesinato brasileiro, segmento em que a sua base de atuação era marcante na defesa da agroecologia e da auto-sustentabilidade, bem antes dessas palavras virarem moda e clichê;
Lucas Leite era um homem coletivo, mas primeiro sempre arriscava a sua verve criativa em suas práticas locais, fazendo de sua experiência pessoal no campo – como um pequeno agricultor que era-, a possibilidade de superação das necessidades básicas do povo; Juntamente com a sua principal parceira, a sua irmã, Mônica Bernadete, ambos construíram bases teóricas e fundamentos práticos no campo da produção agroecológica, da vitalidade na agrofloresta, em contribuição solidária com o movimento dos trabalhadores rurais sem terra, no processo de assentamento em terras conquistadas na luta, em comunidades municipais e até em grupos urbanos, cuja experiência agroecológica, fazemos parte.
Nestes últimos anos, após passar pela experiência de presença no parlamento(ele foi vereador por dois mandatos em Eunápolis), Lucas intensificou a sua ação na produção agroecológica, desvelando os males causados pelo comércio de incrementos agressivos ao meio ambiente, dos agrotóxicos na lavoura, sobretudo mostrando importantes resultados, com exemplos de áreas consorciadas por árvores frutíferas, grãos, pasto, criação de minhocas, abelhas, etc, deixando um legado que precisa ser seguido.
No parlamento, Lucas Leite fez a defesa dos territórios ocupados pelos pequenos agricultores, na perspectiva de uma produção familiar, a gerar renda e autonomia, superando a fome e a dependência, atuando também na educação pública e na política pública de cultura, propondo diversos projetos de lei.
O vereador da cultura
No campo da cultura, entre 2013 a 2016, Lucas Leite propôs os principais projetos estruturantes da política pública de cultura no município de Eunápolis, em sintonia com o Plano Nacional de Cultura: Lucas fez a defesa e conquistou a unanimidade da aprovação do Sistema Municipal de Cultura(SMC), em 2015 e da Lei Cultura Viva municipal, ambas, cruciais para se consolidar a política pública de cultura, que somente será reconhecida num futuro próximo, na medida em que os movimentos culturais da cidade tomem consciência de sua força e da potencia dessas leis.
O SMC por sua força impositiva nacional, é quem garantiu e garante a instalação dos mecanismos de participação e controle social(outra defesa intransigente de Lucas Leite), como os Conselhos, as Conferências e os Fóruns de consulta e decisão de direitos e lutas.
Foi de Lucas Leite a proposta de criação do dia municipal da Capoeira(19 de agosto) e, até o fim de seu mandato tentou garantir que fosse iniciado o processo de mobilização(de recursos e de pessoas) para a construção e aprovação do Plano Municipal de Cultura(PMC), mas infelizmente a conjuntura não era favorável, terminando o seu mandato sem ver isso acontecer. Veio o golpe contra Dilma e a situação ficou ainda mais difícil. O seu mandato no parlamento municipal acabou, mas ele continuou em sua luta, ficando o apelido de “vereador da cultura’, muito embora a sua principal atuação era nas demandas dos pequenos agricultores e na política pública de educação.
Nem precisamos dizer o quanto é doloroso a perda de um companheiro como Lucas Leite.
Por isso, nós do Viola de Bolso não tivemos palavras para expressar a dor, quando desabou o chão embaixo de nós, nos dias de sua passagem para outro plano espiritual.
A sua história, a sua memória e legado é que agora nos guia.
Sigamos, nos passos de Lucas Leite.

Lucas Leite presente!

Deixe um comentário